Às vezes, por causa da rotina de consultório, emergências eventuais, ou da  agenda do próprio paciente, a consulta de acompanhamento do tratamento é muito rápida e técnica. Com isso, pode faltar tempo para esmiuçar alguns assuntos importantes de serem abordados com o paciente.

Portanto, selecionei alguns temas que considero importantes, e alguns, inclusive, que pouco são abordados em consultório. 

Estas dez dicas práticas, certamente, contribuirão para o bom andamento e melhor recuperação do seu tratamento. 

1 – estude o seu próprio caso

Aproveite a consulta médica para tirar todas as suas dúvidas. É muito importante compreender o que acontece especificamente com você. Os pacientes e seus acompanhantes fazem diversas pesquisas sobre os diagnósticos, e, em sua maioria, essas buscas resultam em informações muito amplas. Muito do que se lê pode não servir para o seu caso específico. 

É bom, sim, buscar informações ou relatos de outras experiências. Mas não absorva tudo que encontrar. Anote e leve ao seu médico para validar os dados ou sanar suas dúvidas. 

2 – faça um dossiê do seu tratamento 

É extremamente útil fazer cópias de toda documentação do seu tratamento, desde receituários até laudos de exames. Eventualmente, você terá momentos em separado com diferentes membros da equipe médica, ou consultas complementares com profissionais que precisam conhecer seu histórico, ou, inclusive, para uma decisão de troca de médico. Ter seu histórico em mãos, de forma organizada, poupa tempo e torna a consulta ou procedimento mais proveitoso. 

3 – dedique tempo para escolher seu médico 

É muito comum um senso de urgência dos pacientes. O desejo é começar logo o tratamento para, claro, finalizá-lo o mais rápido possível. Com isso, ocorre uma “corrida médica” para conhecer as alternativas de tratamentos de diferentes profissionais. É compreensível, mas não é recomendável. 

Dedique um tempo para fazer conexão com o médico da sua escolha. Por experiência, levamos em torno de duas semanas para uma avaliação completa, conversa com a família e compreensão do cenário geral no qual o paciente está inserido. 

Fica uma dica extra: escolha um centro especializado que possa lhe oferecer, além do oncologista, acesso a outras áreas complementares que auxiliam no tratamento oncológico, como nutricionistas, psicólogos, assistente social. Uma equipe multiprofissional auxilia bastante no tratamento. 

4 – procure o suporte necessário para falar do seu diagnóstico 

Levar a notícia do seu diagnóstico para a família e para os amigos pode ser tão difícil quanto o momento em que você recebe a notícia do seu médico. É muito natural a dificuldade em falar do assunto, compartilhar seus medos, suas angústias. Em contrapartida, a família também fica apreensiva em fazer comentários que possam deixar o paciente triste. Mas é muito importante e faz bem ter alguém para conversar sobre seu diagnóstico. 

Se não quiser falar com as pessoas próximas, aceite o auxílio de um psicólogo, ou outro profissional da equipe médica, para que você possa expressar seus sentimentos. Isso alivia as emoções e tem impacto nos resultados do tratamento. 

5 – peça auxílio para questões financeiras e administrativas da sua vida 

Esse assunto é antecipado por poucos médicos no acompanhamento do paciente. Além de toda a rotina de tratamento, você deverá conhecer todos os trâmites de convênio, as documentações necessárias, autorizações, além de todos os seus direitos, como auxílio saúde, se for o caso. 

Ou seja, o paciente com câncer tem muitas demandas fora daquela rotina habitual. Com auxílio adequado, você conseguirá administrar com muito mais facilidade. A vida muda bastante após o diagnóstico, por isso, é muito bem-vinda ajuda sobre questões que antes eram muito práticas. 

6 – tenha uma agenda

Você já ouviu sobre lapsos de memória que ocorrem nos pacientes oncológicos? O chamado chemo brain é um déficit cognitivo, muito comum, que resulta na redução da concentração. É normal perder o foco e ter esquecimentos eventuais, mas que podem atrapalhar o dia a dia do paciente e dos acompanhantes. 

O planejamento e a execução do tratamento exige uma série de compromissos, consultas e exames. Uma nova rotina é apresentada ao paciente e duas coisas começam a acontecer: ou o paciente esquece dos novos compromissos, ou os antigos, por mais habituais que sejam. Por isso, crie uma agenda, em papel ou virtual. Deixe todos os compromissos, lembretes e dados importantes anotados. 

7 – converse sobre os paraefeitos do tratamento 

Cada tratamento, e cada paciente, tem suas particularidades no que diz respeito aos paraefeitos. Converse abertamente com a equipe médica sobre o assunto, saiba o que esperar, quais as medidas paliativas que podem ser adotadas, e antecipe-se para estar bem preparado para eventuais efeitos colaterais. 

Precauções como essas trazem tranquilidade a todos que acompanham o paciente e evitam idas desnecessárias aos pronto atendimentos, por exemplo. Você saberá se é um paraefeitos esperado e como resolvê-lo. 

8 – tenha uma boa alimentação 

O acompanhamento de um profissional da área da nutrição é muito importante. Ocorrem alterações de paladar e olfato, as preferências alimentares mudam, e o paciente fica suscetível a enjôos.

De maneira geral, a indicação é que durante o processo quimioterápico as refeições sejam mais frequentes e em menores quantidades. Há categorias de alimentos que sabe-se que não são nutricionalmente indicados, especialmente durante o tratamento, como os industrializados, embutidos, produtos com excesso de açúcar e sal. 

Evitar bebidas alcoólicas durante o tratamento também é uma recomendação geral. Mas se você estiver em um ambiente social e queira fazer parte de uma celebração, indica-se a ingestão de no máximo 500 ml de cerveja, ou duas taças de vinho, ou 75 ml de bebidas destiladas. 

9 – faça atividade física 

Exercícios leves durante o tratamento ajudam a reduzir efeitos indesejáveis da quimioterapia, mantém o tônus muscular e melhoram a capacidade pulmonar. Além disso, os exercícios liberam endorfinas, hormônios estimulantes naturais, que ajudam a reduzir as as dores e atuam no humor. 

Yôga, caminhadas, pilates, alongamentos, tai chi chuan, hidroginástica, geralmente são as atividades mais indicadas. Consulte um profissional da área e respeite os limites do seu corpo. 

10 – tratamento e as atividades de trabalho 

Manter ou não a atividade laboral depende muito da área de atuação, da jornada de trabalho e do tipo de tratamento que será aplicado. Cada caso é um caso e precisa ser bem avaliado com o paciente e a equipe médica. 

Mas sabe-se que se manter em atividade, mesmo que por poucas horas por semana, ou retomar logo após a conclusão do tratamento, contribuem na manutenção da identidade, autoestima e, claro, preserva a questão financeira. Há casos em que a suspensão das atividades se faz necessária, e nesses casos, a rede de suporte é fundamental para manter o bem-estar do paciente. Pode-se estimular a adoção de novos hábitos, como leitura, filmes e estudos.